A expansão do etanol de cereais deixou de ser uma aposta para se tornar uma das principais forças da bioenergia brasileira. Impulsionada pelo milho, a atividade deve alcançar uma produção próxima de 10 bilhões de litros na safra 2025/2026, consolidando um novo ciclo de investimentos, geração de empregos e diversificação da matriz energética nacional.
O crescimento ocorre em um momento estratégico para o Brasil. Enquanto o mundo busca alternativas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, o país amplia sua capacidade de produzir combustíveis renováveis sem comprometer a produção de alimentos, graças ao modelo de economia circular adotado pelas usinas. Hoje, o etanol de cereais já representa mais de um quarto de toda a produção nacional de etanol e deve ganhar ainda mais espaço na próxima década.
Centro-Oeste lidera a nova fronteira energética
O avanço da atividade tem forte concentração no Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, estados que aproveitam a grande disponibilidade do milho da segunda safra para abastecer as usinas. A expansão das chamadas usinas flexíveis também mudou a dinâmica do setor. Diferentemente das unidades dedicadas exclusivamente à cana-de-açúcar, essas plantas podem operar durante os 12 meses do ano, reduzindo a sazonalidade da produção, aumentando a eficiência industrial e contribuindo para maior estabilidade no abastecimento de etanol.
Segundo a União Nacional do Etanol de Milho (Unem), o segmento mantém ritmo de crescimento superior a 30% ao ano desde a instalação das primeiras plantas industriais no país. “O etanol de milho deixou de ser complementar e passou a integrar definitivamente a estratégia energética brasileira”, afirmou o presidente da Unem, Guilherme Nolasco, em diferentes entrevistas concedidas ao longo dos últimos meses durante eventos do setor.
Economia circular fortalece competitividade
Um dos principais diferenciais do modelo brasileiro é o aproveitamento integral do grão. Durante o processamento industrial, apenas o amido é convertido em etanol. Os demais componentes dão origem ao DDG e ao DDGS (grãos secos de destilaria), coprodutos ricos em proteína destinados principalmente à alimentação de bovinos, aves e suínos. Essa característica reduz desperdícios, gera novas fontes de receita para as usinas e fortalece a integração entre agricultura, pecuária e indústria. Especialistas destacam que o sistema elimina o antigo debate sobre concorrência entre produção de alimentos e produção de combustíveis.
Diversificação amplia perspectivas
Embora o milho continue sendo a principal matéria-prima, novas culturas começam a ganhar espaço. Projetos industriais já avaliam o uso de trigo, triticale e sorgo, especialmente nas regiões Sul e Centro-Oeste. O sorgo desperta interesse por apresentar menor custo de produção e maior resistência às condições climáticas adversas. Para pesquisadores do setor, essa diversificação poderá aumentar a segurança do abastecimento e reduzir riscos associados às oscilações de mercado.
Combustível do Futuro impulsiona investimentos
Outro fator decisivo para o crescimento é o novo marco regulatório dos biocombustíveis. A Lei do Combustível do Futuro fortalece o papel do etanol na estratégia brasileira de descarbonização ao ampliar gradualmente sua participação na gasolina e criar um ambiente mais seguro para novos investimentos. Na avaliação do presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), Evandro Gussi, a legislação representa uma das mais importantes políticas públicas para a transição energética brasileira. Em pronunciamentos realizados desde a aprovação da lei, Gussi destacou que o novo marco oferece previsibilidade para investidores e amplia a competitividade do etanol brasileiro tanto no mercado interno quanto no exterior.
Brasil mira mercados internacionais
Além do abastecimento doméstico, o etanol de cereais começa a ocupar posição estratégica no comércio internacional. Nos últimos meses, representantes da Unem destacaram que a validação da pegada de carbono do etanol brasileiro pela Organização Marítima Internacional (IMO) abre caminho para aplicações no transporte marítimo e principalmente na produção do Combustível Sustentável de Aviação (SAF). O mercado internacional observa com atenção esse movimento diante das metas globais de neutralidade de carbono previstas para as próximas décadas.
Desafios permanecem
Apesar do cenário positivo, o setor enfrenta desafios importantes. Levantamentos recentes do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que o aumento da oferta pressionou os preços do etanol ao longo dos últimos meses. A combinação entre maior produção, juros elevados e necessidade de novos investimentos exige maior eficiência operacional das empresas. Mesmo assim, analistas avaliam que os fundamentos continuam favoráveis. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta novas safras recordes de milho, enquanto a crescente demanda mundial por combustíveis renováveis mantém o Brasil em posição privilegiada para ampliar sua participação no mercado internacional.
Uma transformação estrutural
Mais do que aumentar a produção de combustível, o avanço do etanol de cereais representa uma transformação estrutural da agroindústria brasileira. Ao integrar agricultura, pecuária, geração de energia, produção de alimentos para animais e redução das emissões de carbono, o setor cria um modelo de desenvolvimento baseado na economia circular e na bioeconomia. As projeções da Unem indicam que, mantido o atual ritmo de investimentos, o etanol de cereais poderá responder por cerca de 40% da produção nacional de etanol na próxima década, consolidando-se como um dos pilares da transição energética brasileira.
Por Mírian Tomé-Canal-Jornal da Bioenergia













