Goiânia começou a dar forma, no fim de março, a um movimento que mistura pragmatismo e visão de futuro: trocar o diesel que cruza o país por combustível produzido no próprio quintal. Os primeiros cinco ônibus articulados movidos a biometano já chegaram e são só a largada de um plano mais ambicioso — colocar 501 veículos desse tipo para rodar até dezembro de 2027 na Região Metropolitana.
Os novos ônibus têm autonomia superior a 400 quilômetros e podem operar tanto com GNV quanto com biometano. Na prática, isso significa mais flexibilidade no abastecimento e menos dependência de combustíveis fósseis. No pano de fundo, está uma estratégia clara: reduzir emissões e, ao mesmo tempo, transformar resíduos em energia — uma velha lógica do campo aplicada com tecnologia urbana.
E matéria-prima não falta. Goiás tem um potencial estimado em cerca de 2,2 bilhões de metros cúbicos de biogás por ano, vindo de resíduos da cana, da pecuária, da agroindústria e até do lixo urbano. Hoje, menos de 2% disso é aproveitado. É como ter um rio caudaloso correndo ao lado e usar só um fio d’água.
Para virar esse jogo, o projeto aposta em infraestrutura — e não só nos veículos. Um dos pilares é a construção da primeira usina de biometano em escala comercial do estado, no município de Guapó. Com investimento de R$ 140 milhões, a planta terá capacidade inicial de produzir 30 mil metros cúbicos por dia, volume suficiente para abastecer cerca de 100 ônibus.
O biometano será gerado a partir da decomposição de resíduos orgânicos, como lodo e subprodutos agroindustriais. É o tipo de solução que resolve dois problemas de uma vez: dá destino ao que seria descarte e cria uma fonte de energia limpa.
Mas produzir é só metade da história. Fazer esse combustível chegar aos ônibus é o outro desafio — e é aí que entra o gasoduto em implantação, ligando Guapó a Goiânia. O duto vai conectar a usina aos pontos de abastecimento, entre eles o Bioposto Leste, no Terminal Novo Mundo, projetado exclusivamente para esse tipo de operação.
O movimento coloca Goiás em sintonia com uma tendência que vem ganhando força no Brasil: usar o biometano como alternativa viável — e imediata — à eletrificação total das frotas. Enquanto a transição elétrica ainda enfrenta entraves de custo e infraestrutura, o biogás aparece como solução possível, escalável e, principalmente, próxima da realidade do agro brasileiro.
No fim das contas, a equação é simples e poderosa: lixo vira combustível, combustível move ônibus, e ônibus movem a cidade. Goiânia começa a escrever esse capítulo com os pés no chão — e o olhar lá na frente.
Canal -Jornal da Bioenergia













