O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, incluindo o etanol, não nasceu apenas de uma disputa comercial. Por trás das alegações americanas está uma transformação silenciosa ocorrida nos últimos anos no Brasil: a explosão da produção de etanol de milho no Centro-Oeste. O que antes era um mercado abastecido, em parte, pelo etanol de milho norte-americano, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, tornou-se praticamente autossuficiente graças aos investimentos em usinas de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná. A mudança alterou os fluxos logísticos, reduziu drasticamente as importações e enfraqueceu um dos principais mercados externos do biocombustível produzido nos Estados Unidos.
A vantagem americana desapareceu
Durante muitos anos, importar etanol dos Estados Unidos fazia sentido econômico. Como a maior parte da produção brasileira estava concentrada no Centro-Sul, baseada na cana-de-açúcar, abastecer o Norte e o Nordeste exigia transporte por milhares de quilômetros. O etanol de milho produzido no chamado “Corn Belt” americano chegava por navio aos portos nordestinos com custo competitivo. Esse cenário começou a mudar rapidamente com a chegada das usinas flex e das unidades dedicadas exclusivamente ao milho no Centro-Oeste. A produção cresceu em ritmo acelerado, aproximando a oferta das regiões consumidoras e reduzindo o custo do combustível nacional. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), cerca de 20% de todo o etanol produzido no Brasil já tem origem no milho, percentual que continua em expansão.
Centro-Oeste virou protagonista
O Centro-Oeste reúne uma combinação difícil de ser igualada: grande produção de milho de segunda safra; disponibilidade de áreas para expansão industrial; logística ferroviária em crescimento;
integração entre produção de etanol, DDGS para alimentação animal, óleo de milho e geração de energia. A União Nacional do Etanol de Milho (UNEM) informa que o Brasil vem ampliando rapidamente sua capacidade industrial, impulsionado justamente pelo excedente de milho produzido na região. Levantamento do setor mostra que Mato Grosso lidera esse movimento, enquanto Goiás já concentra um dos maiores parques industriais do país e continua recebendo novos investimentos.
O que isso tem a ver com o tarifaço?
Na avaliação de especialistas, muito. Embora o governo americano argumente que existem barreiras tarifárias brasileiras para o etanol importado, representantes do setor afirmam que a principal razão da perda de mercado foi econômica, e não tributária. Durante audiência realizada nos Estados Unidos neste ano, a UNEM contestou a tese de que o mercado brasileiro estaria fechado ao produto americano. Segundo a entidade, a tarifa brasileira segue a regra da Organização Mundial do Comércio para países sem acordo comercial preferencial e o principal fator de redução das importações foi a competitividade conquistada pelo etanol nacional produzido a partir do milho. Em outras palavras, o Brasil deixou de importar porque passou a produzir internamente um combustível equivalente, com logística mais eficiente.
Produção de milho virou questão estratégica
A expansão do etanol de milho também mudou o perfil do agronegócio brasileiro. Antes voltado quase exclusivamente para exportação, parte crescente da safra passou a ser industrializada dentro do país. Além do etanol, cada tonelada processada gera coprodutos de alto valor agregado, como DDGS, WDG e óleo de milho, utilizados principalmente na pecuária. Esse modelo aumenta o valor agregado da produção agrícola e reduz a dependência exclusiva das exportações do grão.
Goiás ganha importância
Para Goiás, a mudança representa uma oportunidade estratégica. Além de ser um dos maiores produtores nacionais de milho e de etanol, o estado reúne usinas de cana que passaram a operar também com milho durante a entressafra, aumentando a utilização dos ativos industriais ao longo de todo o ano. O resultado é maior geração de empregos, incremento da renda regional e fortalecimento da cadeia de bioenergia. Especialistas avaliam que essa diversificação tende a reduzir riscos para o setor sucroenergético, já que amplia as fontes de matéria-prima e diminui a sazonalidade da produção.
Impacto das tarifas deve ser limitado
Apesar da nova tarifa imposta pelos Estados Unidos, analistas avaliam que o efeito sobre o etanol brasileiro tende a ser restrito. A maior parte da produção nacional é destinada ao mercado interno, cuja demanda continua crescendo impulsionada pelo aumento da frota flex e pela elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina. Além disso, o volume exportado aos Estados Unidos representa parcela relativamente pequena da produção brasileira.
Mais que uma disputa comercial
Para analistas do setor, o conflito vai além das tarifas. O crescimento do etanol de milho brasileiro representa uma mudança estrutural no mercado internacional de biocombustíveis. O Brasil deixou de ser apenas o maior produtor mundial de etanol de cana para tornar-se também uma potência no etanol de milho, competindo diretamente com os Estados Unidos em tecnologia, produtividade e custos. Na prática, o “milho contra milho” transformou um antigo cliente do biocombustível americano em um concorrente cada vez mais forte — e essa mudança ajuda a explicar por que o etanol passou a ocupar espaço relevante nas recentes disputas comerciais entre os dois países.
Canal-Jornal da Bioenergia













