Biogás transforma resíduos em energia e coloca Goiás entre as maiores promessas da transição energética no Brasil

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A revolução da transição energética brasileira pode estar acontecendo longe dos grandes centros urbanos, dentro de propriedades rurais, usinas sucroenergéticas, granjas, confinamentos e aterros sanitários. O que antes era tratado como resíduo ambiental tornou-se uma das principais apostas para ampliar a produção de energia limpa, reduzir emissões de gases de efeito estufa e criar uma nova fonte de renda para produtores e indústrias. O mercado brasileiro de biogás vive um dos momentos de maior expansão de sua história. Atualmente, o país conta com cerca de 1.800 plantas produtoras em operação, impulsionadas principalmente pelo agronegócio, pelo setor sucroenergético e pelo aproveitamento energético de resíduos urbanos.

O avanço acompanha uma tendência mundial de valorização dos combustíveis renováveis e coloca o Brasil entre os países com maior potencial para produção de biometano — combustível obtido a partir da purificação do biogás e considerado um substituto direto do gás natural e do diesel de origem fóssil. Segundo especialistas do setor, o crescimento da atividade representa uma mudança de paradigma: em vez de tratar resíduos agropecuários e urbanos como passivos ambientais, eles passam a ser matéria-prima para geração de eletricidade, energia térmica, combustível veicular e créditos de carbono.

Agroenergia lidera a expansão
Grande parte da produção nacional está concentrada em três segmentos: usinas sucroenergéticas, propriedades ligadas à proteína animal e aterros sanitários. No setor sucroenergético, resíduos como vinhaça e torta de filtro alimentam biodigestores capazes de produzir grandes volumes de biogás durante praticamente toda a safra. Na pecuária intensiva, os dejetos de suínos, bovinos e aves abastecem sistemas semelhantes, enquanto os aterros sanitários capturam o metano gerado naturalmente pela decomposição dos resíduos sólidos urbanos. Essa diversidade de matérias-primas torna o Brasil um dos países com maior capacidade de expansão da bioenergia baseada em resíduos. Hoje, o Paraná lidera o número de plantas em operação, seguido por Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo e Goiás.

Goiás desponta como potência
Embora ainda apareça atrás de outros estados em número de usinas, Goiás chama atenção por outro indicador ainda mais relevante: seu enorme potencial produtivo. Dados do Instituto Mauro Borges (IMB) e do Plano Estadual de Energia apontam que o estado possui capacidade teórica para produzir cerca de 2,2 bilhões de metros cúbicos de biogás por ano, ficando atrás apenas de São Paulo. Apesar desse potencial, menos de 4% desse volume é atualmente aproveitado. A maior parte da matéria-prima está distribuída entre três grandes atividades econômicas do estado:

36,9% vêm da agroindústria, especialmente do setor sucroenergético;
31,6% têm origem nos resíduos urbanos e no tratamento de esgoto;
31,5% são provenientes da pecuária intensiva, especialmente da suinocultura, avicultura e bovinocultura confinada.
A distribuição praticamente equilibrada dessas fontes reduz riscos de sazonalidade e amplia as oportunidades para novos investimentos.

Setor sucroenergético ganha protagonismo
Em Goiás, a bioenergia produzida pelas usinas de açúcar e etanol desponta como uma das principais apostas para ampliar a oferta de biometano. Além da geração tradicional de eletricidade a partir do bagaço da cana, as unidades industriais passaram a enxergar valor econômico também na vinhaça, resíduo líquido resultante da produção de etanol. Por meio da biodigestão anaeróbia, a vinhaça produz biogás que, após purificação, transforma-se em biometano. Esse combustível pode abastecer caminhões, tratores, máquinas agrícolas, substituir o diesel em operações industriais e até ser comercializado para distribuidoras de gás. A tendência reforça a integração entre produção de alimentos, combustíveis renováveis e economia circular. A substituição do diesel pode reduzir em até 95% as emissões de poluentes atmosféricos em comparação aos combustíveis fósseis.

Mercado mira transporte pesado
O crescimento do biometano também desperta interesse das empresas de logística. Transportadoras, fabricantes de caminhões e grandes grupos industriais vêm firmando parcerias para ampliar o uso do combustível em frotas pesadas. Além da redução das emissões, o biometano oferece menor dependência do diesel importado e maior previsibilidade de custos para empresas que possuem produção própria de resíduos orgânicos. Outro movimento esperado é a criação dos chamados corredores verdes, com pontos de abastecimento distribuídos ao longo de rodovias estratégicas, como a BR-153, conectando polos agroindustriais aos grandes centros consumidores.

Apesar do cenário favorável, especialistas apontam que o crescimento do setor ainda depende da superação de obstáculos importantes. Um dos principais gargalos está na logística. Grande parte das plantas produtoras está localizada em regiões sem acesso à infraestrutura de gasodutos, exigindo o transporte do biometano por caminhões especializados — conhecidos como “gasodutos virtuais” —, o que aumenta os custos operacionais.

Também persistem dificuldades relacionadas ao acesso à rede elétrica para projetos de geração distribuída, além do elevado investimento inicial necessário para implantação de biodigestores, sistemas de purificação e unidades de compressão do gás. Outro desafio envolve a consolidação do marco regulatório para comercialização do biometano e sua integração às políticas públicas estaduais e nacionais de energia e saneamento.

Crédito de carbono amplia atratividade
Além da venda de energia e combustível, o mercado passa a enxergar uma nova fonte de receita. A captura do metano — gás com potencial de aquecimento global muito superior ao dióxido de carbono — permite gerar créditos de carbono, enquanto a produção de biocombustíveis pode ser beneficiada pelos mecanismos do RenovaBio. A expectativa é que a combinação entre descarbonização, economia circular e segurança energética impulsione novos investimentos ao longo da próxima década. Para Goiás, onde convivem uma das maiores produções agrícolas do país, forte presença da pecuária e um dos maiores parques sucroenergéticos brasileiros, o biogás surge como uma oportunidade estratégica de agregar valor aos resíduos, ampliar a competitividade do agronegócio e consolidar o estado como referência nacional em energia renovável.

Mais do que uma alternativa tecnológica, o biogás passa a representar uma nova fronteira de desenvolvimento econômico sustentável, capaz de transformar passivos ambientais em ativos energéticos e posicionar o Brasil entre os protagonistas da economia de baixo carbono.

Canal-Jornal da Bioenergia

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