A produção de bioeletricidade a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar segue ganhando relevância no Brasil e já ocupa um espaço estratégico na matriz elétrica nacional. Em um cenário marcado por eventos climáticos extremos, pressão sobre os reservatórios hidrelétricos e busca por fontes renováveis firmes, a energia gerada nas usinas sucroenergéticas vem se consolidando como uma solução madura, limpa e complementar ao sistema. Atualmente, o Brasil produz cerca de 21 mil GWh de bioeletricidade por ano a partir da biomassa da cana, volume suficiente para atender milhões de residências e que representa aproximadamente 4% da geração elétrica do país. O crescimento recente é expressivo: em 2023, a geração avançou cerca de 14% em relação ao ano anterior, movimento que se manteve ao longo de 2024 e 2025, impulsionado por investimentos em cogeração e maior eficiência industrial.
Estamos falando de uma solução segura, inteligente e carbono neutro, que aproveita subprodutos da cana e pode incorporar novas tecnologias como o biogás e o biometano, diversificando as fontes e fortalecendo o sistema elétrico”, afirma Newton Duarte, presidente executivo da Cogen. “Com avanços regulatórios e coordenação setorial, a bioeletricidade pode ser cada vez mais um pilar ainda mais relevante na segurança energética do Brasil.”
Sazonalidade favorável
Um dos principais diferenciais da bioeletricidade da cana é sua sazonalidade favorável. A geração ocorre majoritariamente durante o período seco, justamente quando os reservatórios das hidrelétricas estão mais pressionados. Na prática, o setor sucroenergético atua como um “amortecedor” do sistema elétrico, reduzindo riscos de escassez e contribuindo para a segurança energética nacional. Apesar dos avanços, o setor ainda explora apenas uma fração do seu potencial. Estudos técnicos indicam que, com o aproveitamento integral do bagaço e da palha disponíveis nas lavouras, o Brasil poderia gerar mais de 140 mil GWh por ano, multiplicando várias vezes a oferta atual. A limitação está menos na disponibilidade de matéria-prima e mais em entraves regulatórios, acesso a financiamento, infraestrutura de conexão à rede e previsibilidade de políticas públicas.
As perspectivas para 2026 são positivas, embora cercadas de cautela. Projeções do planejamento energético indicam que a biomassa seguirá ampliando sua participação na matriz elétrica, alinhada aos compromissos de descarbonização e diversificação de fontes. No entanto, fatores como a expectativa de menor moagem de cana na safra 2025/26, impactos climáticos e a competição entre açúcar, etanol e energia podem moderar o ritmo de crescimento no curto prazo.
Especialistas apontam três cenários principais para o próximo ano. No mais otimista, novos investimentos em cogeração e maior uso da palha ampliam a oferta de bioeletricidade, fortalecendo o papel da biomassa como fonte estratégica. Em um cenário mais conservador, o crescimento ocorre de forma gradual, condicionado à estabilidade regulatória e às condições da safra. Já no horizonte mais transformador, o setor avança com tecnologias mais eficientes, como a gasificação da biomassa, elevando o protagonismo do Brasil na transição energética.
Com tecnologia nacional, integração direta ao agronegócio e baixa pegada de carbono, a bioeletricidade da cana-de-açúcar se firma como um ativo energético de longo prazo. O desafio, a partir de agora, é transformar potencial em realidade, garantindo que essa energia limpa, firme e renovável ocupe o espaço compatível com sua importância para o futuro elétrico do país.
PDE 2034
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2034 (PDE 2034) projeta um crescimento limitado da geração centralizada de energia a partir de biomassas, biogás e resíduos sólidos urbanos (RSU) ao longo da próxima década. De acordo com o documento, essas fontes deverão adicionar 1.947 MW de capacidade instalada entre 2025 e 2034, no Cenário de Referência. A expansão prevista é a menor entre as fontes renováveis, ficando à frente apenas das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs), que devem incorporar 3.287 MW no mesmo período.
O resultado chama atenção diante da maturidade tecnológica e da participação atual dessas fontes na matriz elétrica brasileira. Para Zilmar de Souza, gerente de Bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), o PDE 2034 apresenta uma visão conservadora sobre o aproveitamento da bioeletricidade no país. Segundo o especialista, a projeção para 2034 indica uma geração ainda distante do potencial técnico e energético das biomassas, do biogás e do aproveitamento energético de resíduos. Ele destaca que a expectativa do setor está associada à reforma do ambiente institucional do setor elétrico, atualmente em discussão, que pode criar condições mais favoráveis para a ampliação da participação dessas fontes na matriz.
A fotografia traçada pelo PDE 2034, portanto, aponta para um crescimento moderado da bioeletricidade na próxima década, em um contexto de revisão das regras do setor e de debates sobre o papel das fontes renováveis no planejamento energético de longo prazo.
Canal-Jornal da Bioenergia












