Tarifaço dos EUA atinge etanol e açúcar brasileiro, mas impacto imediato para usinas do Centro-Sul deve ser limitado

O governo dos Estados Unidos oficializou a aplicação de uma nova tarifa adicional de 25% sobre milhares de produtos brasileiros, incluindo o etanol e o açúcar orgânico. A medida, confirmada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), atinge aproximadamente US$ 15 bilhões em exportações brasileiras por ano e marca um novo capítulo nas tensões comerciais entre os dois países.

A sobretaxa começa a valer em 22 de julho e será aplicada aos produtos que deixarem os portos brasileiros a partir dessa data. Mercadorias já embarcadas antes da entrada em vigor da medida ficarão de fora da nova cobrança.

Especialistas alertam que a tarifa poderá ser acumulada com outras taxas já existentes para determinados produtos, elevando a tributação em alguns casos para até 37,5%. Além disso, o Brasil ainda pode enfrentar outra tarifa de 12,5%, relacionada a uma investigação conduzida pelos EUA sobre fiscalização de trabalho forçado envolvendo dezenas de economias.

Etanol no centro da disputa
No caso do etanol, o USTR afirmou que a sobretaxa foi fortemente defendida pela indústria norte-americana de biocombustíveis, que argumenta ter perdido competitividade devido às tarifas brasileiras aplicadas ao etanol produzido nos Estados Unidos. O açúcar orgânico também passou a integrar a lista de produtos atingidos. O governo americano sustenta que a produção doméstica é insuficiente para atender à demanda interna, mas, ainda assim, optou por taxar as importações brasileiras.

Além do etanol e do açúcar, a medida alcança calçados, máquinas agrícolas, ferramentas de jardinagem, vestuário, papel e diversos bens de capital. Por outro lado, os EUA preservaram uma lista de produtos considerados estratégicos para evitar impactos inflacionários no mercado interno. Permaneceram isentos itens como carne bovina, café, laranja, suco de laranja, petróleo bruto, gás natural, celulose e componentes aeroespaciais.

Governo brasileiro promete reciprocidade
A reação do governo brasileiro foi imediata. O Palácio do Planalto e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços classificaram a decisão como um “marco lastimável” nas relações bilaterais.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o Brasil utilizará a Lei de Reciprocidade Econômica, mecanismo que permite a adoção de medidas equivalentes contra produtos e empresas de países que imponham barreiras comerciais consideradas injustificadas. Entre os setores americanos que poderão ser atingidos estão o etanol de milho, produtos de tecnologia, softwares, equipamentos industriais e bens de capital, além de produtos agrícolas como trigo e algodão, considerados politicamente relevantes para os Estados Unidos.

Centro-Sul deve sentir pouco efeito imediato
Apesar da repercussão política, analistas avaliam que o impacto financeiro imediato para as usinas do Centro-Sul brasileiro tende a ser relativamente limitado. Segundo avaliações de mercado, a região praticamente não depende das exportações de etanol combustível para os Estados Unidos. A maior parte da produção é destinada ao mercado interno, reduzindo a exposição direta à nova tarifa.

No caso do açúcar, embora os EUA sejam um importante comprador, as usinas brasileiras possuem flexibilidade comercial para redirecionar parte da produção para mercados como Ásia e Oriente Médio, onde a demanda permanece elevada. A maior preocupação recai sobre usinas das regiões Norte e Nordeste, que tradicionalmente utilizavam cotas preferenciais de exportação para os Estados Unidos. Com a nova sobretaxa, esses embarques tendem a perder competitividade, elevando o risco de redução nas vendas e na rentabilidade dessas unidades.

Mercado acompanha desdobramentos
O setor sucroenergético acompanha agora os próximos passos das negociações diplomáticas entre Brasília e Washington. Embora a nova tarifa represente um endurecimento das relações comerciais, especialistas destacam que a elevada competitividade do açúcar brasileiro e a diversificação dos mercados compradores reduzem o risco de perdas expressivas para o Centro-Sul no curto prazo. Ao mesmo tempo, a adoção da Lei de Reciprocidade Econômica pelo governo brasileiro inaugura uma nova fase nas relações entre os dois países, ampliando as incertezas para empresas exportadoras e importadoras de ambos os lados e colocando o comércio bilateral sob um ambiente de maior tensão.

Canal-Jornal da Bioenergia

Compartilhe:

Artigos Relacionados