Diretor-executivo da ABiogás analisa a consolidação do setor, os avanços regulatórios e o papel estratégico do gás renovável na descarbonização e na segurança energética do país
Canal- Jornal da Bioenergia: Como o senhor avalia o estágio atual de desenvolvimento do biogás e do biometano no Brasil?
Tiago Santovito: O Brasil vive um momento de transição decisiva no desenvolvimento do biogás e do biometano. O setor deixou de ser experimental e passou a ocupar uma posição estratégica na agenda energética, ambiental e política para o país. Hoje, já contamos com mais de 1.600 plantas de biogás e uma carteira crescente de projetos de biometano, distribuídos entre saneamento, agroindústria e resíduos sólidos urbanos. Esse avanço reflete não apenas o enorme potencial técnico disponível, mas também uma maior maturidade regulatória, institucional e de mercado, que começa a transformar esse potencial em projetos estruturados e investimentos concretos.
Canal: O país já superou a fase piloto e entrou, de fato, em uma etapa industrial do setor?
Tiago: Sim, especialmente no caso do biometano, o Brasil já ingressou em uma etapa de industrialização do setor. Esse movimento se evidencia pelos dados oficiais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que atualmente registra 18 plantas de biometano autorizadas em operação, ou seja, já produzindo biometano que é consumido em diversos setores da economia. Além dessas plantas, existem outras 40 instalações em processos de autorização em andamento, muitas delas já em fase de construção. Além do crescimento no número de plantas, observa-se a consolidação de modelos de negócios mais estruturados, com contratos firmes de fornecimento, investimentos de maior porte e integração logística com redes de gás, consumidores industriais e o setor de transportes. Embora o setor ainda apresente amplo potencial de expansão, os dados regulatórios indicam que o biometano deixou de ser predominantemente um projeto demonstrativo e passou a operar em escala industrial em diferentes regiões do país.
Canal: Quais setores hoje lideram a produção e o consumo de biogás e biometano?
Tiago: Atualmente, a produção de biogás e biometano no Brasil é liderada por dois grandes grupos de setores, com uma distribuição bastante equilibrada. Aproximadamente 50% das plantas autorizadas utilizam resíduos sólidos urbanos depositados em aterros sanitários, que historicamente estruturaram o mercado e seguem relevantes pela escala, previsibilidade de oferta e maturidade tecnológica.

Os outros 50% da produção têm origem em produtos e resíduos orgânicos agrossilvipastoris, com destaque para a agroindústria, especialmente o setor sucroenergético (vinhaça e torta de filtro) e a cadeia de proteína animal (dejetos de suínos, aves e bovinos). Esses segmentos vêm crescendo de forma acelerada, impulsionados pela integração com processos industriais existentes, ganhos logísticos e sinergias com a descarbonização do agronegócio.
Do lado do consumo, o protagonismo está na indústria, sobretudo para geração de energia térmica e substituição do gás natural fóssil, e no transporte pesado, onde o biometano já se consolida como alternativa tecnicamente viável, ambientalmente eficiente e competitiva para substituição do diesel.
Canal: O biometano pode se consolidar como substituto competitivo ao gás natural fóssil? Em quais aplicações isso já é realidade?
Tiago: O biometano tem plenas condições de se consolidar como um substituto competitivo ao gás natural fóssil, sobretudo porque entre os biocombustíveis, o biometano é o único que tem a mesma característica física e química do energético fóssil, sendo que ambos podem utilizar a infraestrutura existente, facilitando a descarbonização de setores-chave.
Essa substituição já é realidade no transporte pesado, com ônibus e caminhões movidos a biometano, e em aplicações industriais que demandam calor de processo. Além disso, em projetos de autoconsumo, especialmente no agro, o biometano já representa redução de custos operacionais e de emissões, reforçando sua competitividade quando considerados os benefícios ambientais e regulatórios associados.
Canal: Qual deve ser o papel do biometano na matriz energética brasileira nos próximos anos?
Tiago: Nos próximos anos, o biometano deve ocupar um papel estratégico na matriz energética brasileira, atuando como vetor central de descarbonização para setores hard to abate, nos quais a eletrificação é tecnicamente limitada ou economicamente inviável. Nesse contexto, destaca-se especialmente o transporte de carga pesada e o transporte urbano, segmentos altamente intensivos em emissões e com necessidade de soluções de curto e médio prazo para redução de carbono.
O biometano permite a redução imediata de emissões de gases de efeito estufa, aproveitando a infraestrutura existente de gás e motores a combustão adaptados ou desenvolvidos para o uso de biometano, sem demandar mudanças estruturais profundas. Além disso, contribui para a segurança energética, por ser produzido localmente a partir de resíduos, reduzindo dependência de combustíveis fósseis importados e fortalecendo economias regionais.

Esse papel estratégico já se reflete em iniciativas concretas em âmbito estadual, como os programas de uso de biometano no transporte coletivo urbano, como por exemplo em Goiás, com frotas de ônibus movidas a gás renovável, e os corredores sustentáveis no Paraná, voltados à descarbonização do transporte rodoviário de cargas. Essas experiências reforçam o potencial do biometano como solução escalável, integrada e alinhada às metas climáticas nacionais.
Assim, o biometano se consolida como uma solução que combina eficiência energética, sustentabilidade ambiental e desenvolvimento regional, com capacidade de acelerar a transição energética brasileira de forma pragmática e economicamente viável.
Canal: Como a ABiogás avalia o atual marco regulatório e o ambiente de segurança jurídica para investidores?
Tiago: A promulgação da Lei do Combustível do Futuro representa um passo fundamental para a consolidação do setor. A criação do Certificado de Garantia de Origem do Biometano, que é um instrumento-chave para dar rastreabilidade, transparência e previsibilidade ao mercado, assim como é um instrumento legal que servirá para comprovar a redução de emissões.
Ainda assim, como o biometano é relativamente novo, é importante avançar na harmonização regulatória entre estados, visando fomentar e incentivar o uso do biometano em chamadas públicas de contratação de biometano pelas distribuidoras de gás. Importante também o desenvolvimento de políticas que visam atrair investimentos no fortalecimento das infraestruturas para conectar o biometano, assim como linhas de crédito voltadas para a economia verde.

Canal: O cenário econômico e a reforma tributária tendem a favorecer novos investimentos no setor?
Tiago: Sim. O cenário econômico e a reforma tributária tendem a favorecer novos investimentos no setor de biogás e biometano. A regulamentação da reforma traz mais previsibilidade e pode garantir um diferencial competitivo aos biocombustíveis, com reduções de alíquota estimadas entre 10% e 60%, aumentando a competitividade do biometano frente aos combustíveis fósseis.
Esse ambiente é reforçado pela agenda do governo e pela pressão das metas climáticas, incluindo a meta anunciada na COP30 de quadruplicar a participação dos biocombustíveis. A combinação entre política fiscal, compromissos climáticos e segurança energética cria um cenário mais favorável para investimentos estruturantes no setor.
Canal: De que forma o biogás contribui para a agenda ESG, a economia circular e a redução de emissões?
Tiago: O biogás, que dá origem ao biometano, é exemplo concreto de soluções alinhadas à agenda ESG. Do ponto de vista ambiental, evita emissões, ao capturar o metano que iria para a atmosfera, gerado por resíduos orgânicos e utilizá-lo na substituição de combustíveis fósseis. No aspecto social, contribuem para a melhoria da gestão de resíduos, do saneamento e da qualidade ambiental local, além de gerar empregos e renda.
Já na governança, exigem rastreabilidade, monitoramento e conformidade técnica, especialmente com a implementação de instrumentos como o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB). Além disso, promovem a economia circular ao transformar resíduos em energia e insumos úteis, como biofertilizantes.
Canal: O setor tem potencial para impulsionar o desenvolvimento regional e a geração de empregos no país?
Tiago: Sem dúvida. O setor de biogás é intrinsecamente descentralizado, pois depende da disponibilidade local de resíduos, o que favorece a criação de polos regionais de desenvolvimento em diferentes partes do país. Estudos indicam um potencial de geração de cerca de 798 mil empregos, entre diretos e indiretos, distribuídos ao longo de toda a cadeia. Esse dinamismo vem acompanhado de investimentos da ordem de R$ 348 bilhões, capazes de estimular economias locais, especialmente em regiões com forte base agroindustrial ou desafios na gestão de resíduos. Além dos efeitos econômicos e sociais, o setor contribui de forma relevante para a agenda climática, com potencial de redução de até 642 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, reforçando o papel do biogás como vetor de desenvolvimento regional sustentável no Brasil.
Canal: Que cenário a ABiogás projeta para o biogás e o biometano no Brasil até 2030?
Tiago: Até 2030, a ABiogás projeta um cenário de forte consolidação e escala do setor de biogás e biometano no Brasil. A expectativa é que o país alcance uma produção em torno de 7,34 milhões de m³ de biometano por dia, refletindo a entrada em operação de um número crescente de plantas, a maturação tecnológica dos projetos e a ampliação da integração desse energético à matriz nacional. Esse avanço posiciona o biometano como uma solução estruturante da transição energética, com contribuição relevante para a redução de emissões, o reforço da segurança energética, a substituição de combustíveis fósseis em usos industriais, veiculares, além de impactos positivos duradouros no desenvolvimento econômico regional.













