O Brasil reúne condições únicas para se tornar uma das principais potências mundiais na produção de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês), um dos pilares da estratégia global para reduzir as emissões de carbono do transporte aéreo. A avaliação foi apresentada pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), durante sua Reunião Geral Anual realizada no Rio de Janeiro, que reuniu líderes das maiores companhias aéreas do mundo.
Segundo projeções da entidade, o país poderá alcançar uma capacidade instalada de 12 milhões de toneladas de SAF até 2030, volume cinco vezes superior à produção global estimada para 2026, de 2,4 milhões de toneladas. Atualmente, o Brasil possui cerca de 15 projetos em desenvolvimento, com potencial de produção de aproximadamente 2 milhões de toneladas.
O SAF é produzido a partir de matérias-primas renováveis e pode substituir parcial ou totalmente o querosene de aviação convencional. Sua utilização permite reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo de vida do combustível, tornando-se uma das principais apostas do setor aéreo para cumprir a meta de neutralidade de carbono até 2050.
A posição privilegiada do Brasil está diretamente relacionada à força do agronegócio e da indústria de bioenergia. O país possui ampla disponibilidade de biomassa sustentável, incluindo cana-de-açúcar, etanol, resíduos agrícolas e óleos vegetais, além de experiência consolidada na produção de biocombustíveis em escala comercial.
Entre as rotas tecnológicas mais promissoras está a conversão do etanol em combustível de aviação, conhecida como Alcohol-to-Jet (ATJ). A tecnologia aproveita a infraestrutura já existente no setor sucroenergético e pode transformar o etanol brasileiro em uma das principais matérias-primas para abastecer o mercado global de SAF.
Além dos benefícios ambientais, a expansão da produção abre novas perspectivas econômicas para o país. Especialistas apontam que a cadeia do SAF pode impulsionar investimentos em novas plantas industriais, ampliar mercados para os produtores de biomassa, gerar empregos qualificados e fortalecer a posição do Brasil como exportador de combustíveis renováveis de alto valor agregado.
A oportunidade ganha relevância diante dos desafios enfrentados pela aviação mundial. Durante o encontro da IATA, o diretor-geral da entidade, Willie Walsh, alertou que o setor está atrasado em sua trajetória para atingir emissões líquidas zero até 2050. A principal dificuldade é justamente a baixa oferta de SAF, que atualmente representa menos de 1% do consumo global de combustível da aviação.
Nesse cenário, o Brasil surge como um dos poucos países capazes de ampliar rapidamente a produção em larga escala. Projeções da IATA indicam que, mantidos os investimentos e o avanço regulatório, a capacidade brasileira poderá atingir até 60 milhões de toneladas anuais em 2050.
Para especialistas do setor, o desafio agora é transformar potencial em realidade. A expansão dependerá de investimentos industriais, desenvolvimento tecnológico, marcos regulatórios estáveis e mecanismos que estimulem a competitividade do combustível sustentável frente aos combustíveis fósseis.
Se conseguir avançar nessas frentes, o Brasil poderá repetir na aviação a liderança conquistada ao longo das últimas décadas no mercado de etanol, tornando-se referência global na produção de energia renovável para um dos setores mais difíceis de descarbonizar da economia mundial.
Canal-Jornal da Bioenergia












