O avanço das projeções que apontam para a formação de um novo episódio de El Niño em 2026 tem colocado o setor bioenergético brasileiro em estado de atenção. Responsável por uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, a cadeia da cana-de-açúcar poderá enfrentar desafios relacionados à redução das chuvas em importantes regiões produtoras, aumento das temperaturas e maior risco de incêndios em áreas agrícolas.
Embora os efeitos do fenômeno variem entre as regiões do país, especialistas indicam que o Centro-Oeste, onde estão concentradas importantes áreas produtoras de cana-de-açúcar, poderá registrar períodos mais prolongados de estiagem e temperaturas acima da média. O cenário preocupa usinas e produtores, já que a disponibilidade de água é um dos fatores determinantes para o desenvolvimento da cultura.
Impactos além do campo
Os reflexos do El Niño podem alcançar toda a cadeia produtiva da bioenergia. Menor produtividade agrícola significa redução no volume de matéria-prima destinada à fabricação de etanol, açúcar e bioeletricidade, produtos que desempenham papel estratégico na segurança energética e na descarbonização da economia brasileira. Além dos desafios para a produção, o fenômeno pode influenciar custos operacionais, planejamento industrial e estimativas de oferta para o mercado interno e externo.
Risco maior de incêndios
Outro ponto de preocupação é o aumento do risco de incêndios rurais. Com a combinação de vegetação mais seca, baixa umidade relativa do ar e temperaturas elevadas, as condições tornam-se mais favoráveis para a ocorrência e propagação do fogo. Nos últimos anos, as empresas do setor têm ampliado investimentos em monitoramento, brigadas especializadas, aeronaves de combate, torres de vigilância e campanhas de conscientização para reduzir os impactos das queimadas. Ainda assim, especialistas alertam que anos sob influência do El Niño exigem atenção redobrada.
Planejamento será decisivo
O professor de agrometeorologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Fábio Marin, avalia que o cenário climático para os próximos meses requer planejamento e acompanhamento constante. Segundo o especialista, as projeções mais recentes apontam para a consolidação de um episódio de El Niño ao longo de 2026, com reflexos importantes para a agricultura brasileira, especialmente em regiões onde a disponibilidade hídrica já costuma ser limitada. Para ele, o monitoramento climático será fundamental para orientar decisões de manejo e reduzir riscos produtivos ao longo da próxima safra.
Soja e milho também estão no radar
Embora a cana-de-açúcar esteja entre as culturas de maior destaque nesse contexto, outras importantes cadeias agrícolas também devem sentir os efeitos do fenômeno. A soja pode enfrentar dificuldades relacionadas à irregularidade das chuvas durante o plantio da safra 2026/27, especialmente em estados do Centro-Oeste. Já o milho safrinha poderá ser impactado por períodos secos em fases decisivas do desenvolvimento da cultura, reduzindo o potencial produtivo em algumas regiões.
No Sul do país, o cenário tende a ser diferente. Historicamente, episódios de El Niño favorecem o aumento das chuvas, o que pode beneficiar determinadas lavouras, mas também elevar os riscos de alagamentos, erosão do solo e proliferação de doenças causadas pelo excesso de umidade.
Para o setor bioenergético, a principal preocupação continua sendo a combinação entre déficit hídrico e incêndios. Além de comprometer a produtividade dos canaviais, esses fatores podem afetar a oferta de biomassa utilizada na geração de energia renovável.
A bioeletricidade produzida a partir do bagaço da cana tem papel fundamental no abastecimento nacional justamente durante os meses mais secos do ano, quando os reservatórios das hidrelétricas costumam registrar níveis mais baixos. Qualquer redução significativa na disponibilidade de matéria-prima pode ter reflexos sobre a oferta dessa energia complementar ao sistema elétrico brasileiro.
Canal-Jornal da Bioenergia












