Nova tecnologia combina sensores, imagens de satélite e modelos preditivos para antecipar riscos hídricos e orientar decisões na irrigação
A gestão da água ganhou um novo aliado tecnológico. Uma solução desenvolvida pela startup paulista Spectrum utiliza inteligência artificial, monitoramento remoto e análise integrada de dados ambientais para prever a disponibilidade hídrica em propriedades rurais com até 16 dias de antecedência. A inovação representa um avanço no manejo da irrigação ao permitir que produtores tomem decisões baseadas em evidências científicas, reduzindo riscos operacionais e aumentando a eficiência no uso dos recursos naturais.
Batizada de PalmaFlex Total, a tecnologia amplia as funcionalidades de uma plataforma lançada originalmente para monitoramento da umidade do solo. O novo sistema reúne informações coletadas por sensores instalados na propriedade, imagens de satélite, dados meteorológicos e registros pluviométricos das bacias hidrográficas para construir modelos capazes de estimar o comportamento dos mananciais que abastecem as fazendas.
A solução foi desenvolvida pela Spectrum com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), sob a liderança de Adilson Chinatto e da engenheira eletricista Cynthia Junqueira, mestre pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O diferencial está na capacidade de transformar grandes volumes de dados dispersos em informações práticas para o produtor rural. A plataforma utiliza comunicação via rádio de longo alcance, cobrindo áreas de até 3 mil hectares, e opera mesmo em regiões remotas, onde a conectividade costuma ser limitada.
Além de monitorar variáveis como temperatura, vento, radiação solar e desempenho de equipamentos, o sistema concentra seus esforços na análise dos cursos d’água que abastecem os sistemas de irrigação. Em muitas propriedades agrícolas, especialmente nas grandes áreas produtoras de grãos, a disponibilidade de água pode variar significativamente durante os períodos de estiagem, impactando diretamente o funcionamento dos pivôs centrais.
Por meio de algoritmos preditivos, a ferramenta avalia se haverá vazão suficiente para sustentar a irrigação antes mesmo do acionamento dos equipamentos. A análise considera, entre outros fatores, as chuvas registradas nas regiões mais altas da bacia hidrográfica, cuja influência sobre o volume dos rios pode ser percebida dias depois nas áreas de captação.
Com essas informações, gestores conseguem planejar melhor o uso da irrigação, definir estratégias de plantio, avaliar a necessidade de investimentos em infraestrutura hídrica e até escolher culturas mais adequadas às condições previstas. O sistema também calcula o balanço hídrico das lavouras, indicador fundamental para o manejo eficiente da água.
Outra contribuição relevante está na geração de históricos detalhados sobre a disponibilidade hídrica da propriedade. Esses registros podem subsidiar processos de renovação de outorgas de uso da água e fornecer evidências técnicas sobre a real condição dos mananciais.
Segundo os desenvolvedores, o potencial da tecnologia cresce à medida que os efeitos das mudanças climáticas tornam os regimes de chuva mais imprevisíveis. A expectativa é que os modelos evoluam para ampliar o horizonte das previsões e expandir aplicações para além do campo.
A mesma metodologia já desperta interesse para uso em áreas urbanas, especialmente no monitoramento de pequenos rios e córregos sujeitos a enchentes. Nesse cenário, uma tecnologia criada para aumentar a segurança hídrica e produtiva no agronegócio poderá contribuir também para a prevenção de desastres e a proteção de comunidades urbanas. (Canal com informações da FAPESP)













