São Paulo anuncia primeira usina de captura e armazenamento de carbono gerado pelo etanol de cana

O Estado de São Paulo dará um passo inédito na agenda de descarbonização ao implantar a primeira usina brasileira voltada à captura e armazenamento de carbono proveniente da produção de etanol de cana-de-açúcar. A iniciativa, anunciada durante a Semana do Meio Ambiente, prevê investimentos estimados em R$ 30 milhões e pode transformar o etanol em um combustível com emissões negativas de carbono.

O projeto será conduzido pelo Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio), novo centro de pesquisa sediado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). A iniciativa reúne pesquisadores, governo estadual e empresas do setor produtivo para avaliar a viabilidade técnica, econômica e regulatória da tecnologia conhecida como BECCS (Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono).

Etanol com emissões negativas

Atualmente, a produção de etanol já apresenta vantagens ambientais em relação aos combustíveis fósseis por emitir menos gases de efeito estufa. Com a adoção da nova tecnologia, o dióxido de carbono liberado durante a fermentação da cana poderá ser capturado e armazenado em formações geológicas profundas, impedindo seu retorno à atmosfera.

Na prática, o processo tem potencial para transformar o etanol em um combustível capaz de retirar mais carbono da atmosfera do que emitir ao longo de seu ciclo produtivo, ampliando significativamente sua contribuição para o combate às mudanças climáticas.

Projeto será desenvolvido em duas etapas

O programa será executado ao longo de cinco anos. Nos dois primeiros anos, os pesquisadores vão identificar áreas adequadas para a instalação da usina, considerando fatores como características geológicas, proximidade de unidades produtoras, infraestrutura disponível, custos operacionais e impactos socioambientais.

A segunda etapa prevê a implantação e operação da planta, que deverá servir como referência para futuras iniciativas semelhantes em outras regiões produtoras do país.

Desafio é tornar a tecnologia economicamente viável

Um dos principais desafios apontados pelos especialistas é a viabilidade econômica do armazenamento de carbono. Como a atividade não gera receita direta, os estudos deverão avaliar mecanismos de monetização, incluindo créditos de carbono, compensações ambientais e incentivos governamentais.

A expectativa é que o avanço dos mercados regulados e voluntários de carbono ajude a criar novas oportunidades de remuneração para projetos de remoção de emissões.

Armazenamento em reservatórios profundos

As áreas escolhidas para armazenar o CO₂ deverão contar com reservatórios salinos profundos, localizados a mais de mil metros da superfície. Essas formações rochosas possuem capacidade para reter o gás de forma segura por longos períodos, sem interferir em recursos hídricos utilizados para abastecimento humano.

Os estudos geológicos serão fundamentais para garantir a segurança ambiental e a eficiência do processo de armazenamento.

Setor sucroenergético ganha protagonismo climático

O anúncio reforça a estratégia paulista de ampliar o protagonismo na produção de energia renovável e na redução das emissões de gases de efeito estufa. Maior produtor nacional de cana-de-açúcar, açúcar e etanol, São Paulo poderá se tornar referência internacional na aplicação de tecnologias de remoção de carbono associadas ao setor sucroenergético.

Atualmente, o Brasil possui apenas uma planta de captura e armazenamento de carbono ligada à produção de etanol de milho, instalada no Mato Grosso. A futura unidade paulista será a primeira do país dedicada exclusivamente ao etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, abrindo caminho para uma nova etapa de sustentabilidade e competitividade para o agronegócio brasileiro.

Canal-Jornal da Bioenergia

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