Artigo/Qualidade dos Egressos de Agronomia no Brasil: um Descompasso com as Demandas da Agricultura Moderna

Laércio Zambolim, Prof. Harold Gilles University, engenheiro agrônomo, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica

Artigo distribuído pelo Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS)

 

A agricultura brasileira ocupa posição de destaque global, mas convive com um paradoxo persistente: a produtividade média ainda é baixa quando comparada ao potencial técnico disponível. Em propriedades assistidas por profissionais altamente qualificados e com uso intensivo de tecnologia, os resultados frequentemente dobram a média nacional. Isso evidencia que o principal gargalo não é apenas estrutural ou tecnológico, mas humano — particularmente na formação dos engenheiros agrônomos.

Nos próximos anos, o agrônomo deixará de ser um mero prescritor de insumos para assumir o papel de gestor de sistemas complexos, integrando dados, tecnologia e sustentabilidade. Esse novo perfil exige domínio de agricultura digital, análise de dados, biotecnologia, manejo sustentável e capacidade de gestão. No entanto, a formação oferecida por grande parte dos cursos de Agronomia no país está aquém dessas exigências.

Expansão dos cursos e queda na qualidade

A rápida expansão dos cursos de Agronomia — superior a 1.000% na última década — trouxe como consequência uma forte heterogeneidade na formação. Embora instituições públicas e algumas privadas de excelência ainda formem profissionais altamente qualificados, a maioria dos cursos apresenta deficiências significativas, especialmente em infraestrutura prática, atualização curricular e qualificação docente.

O crescimento do ensino à distância agravou esse cenário. Mesmo com regulamentações mais recentes exigindo carga presencial mínima, persiste a dúvida sobre a efetividade da fiscalização. A formação prática, essencial à profissão, continua sendo um dos pontos mais frágeis, gerando insegurança nos recém-formados.

Formação desconectada da realidade

Uma crítica recorrente é o excesso de teoria em detrimento da prática. Muitos cursos permanecem ancorados em modelos tradicionais, pouco alinhados à velocidade das transformações tecnológicas no campo. Áreas como agricultura de precisão, inteligência artificial, análise de dados e uso de sensores ainda são insuficientemente exploradas em grande parte das instituições.

Além disso, há um distanciamento preocupante entre o corpo docente e a realidade do campo. Em muitos casos, falta experiência prática aos professores, o que limita a capacidade de formar profissionais aptos a lidar com problemas reais. O resultado é um egresso que conhece a “planta ideal”, mas não sabe reagir às variáveis concretas do ambiente produtivo.

Lacunas técnicas e comportamentais

O mercado de trabalho continua aquecido, mas tornou-se mais seletivo. Não faltam diplomados — faltam profissionais qualificados. Empresas do setor relatam deficiências básicas em recém-formados, incluindo erros técnicos elementares, dificuldade de comunicação e falta de postura profissional.

As lacunas não são apenas técnicas. Há também um déficit relevante em competências comportamentais, como liderança, negociação e visão de negócios. Em um setor cada vez mais integrado a cadeias globais e exigências ESG, essas habilidades são tão importantes quanto o conhecimento agronômico.

O novo perfil exigido

O agrônomo contemporâneo precisa atuar como:

gestor de dados e tecnologia (IA, sensores, drones);
especialista em sustentabilidade e rastreabilidade;
consultor estratégico e não apenas técnico;
agente de inovação em bioinsumos e sistemas regenerativos.
Entretanto, a formação atual, em grande parte das instituições, não prepara adequadamente para esse perfil. A defasagem entre ensino e prática compromete a capacidade do país de avançar em produtividade e competitividade.

Consequências para o setor

A baixa qualidade média dos egressos impacta diretamente o desempenho do agronegócio. Profissionais mal preparados:

tomam decisões menos eficientes;
elevam custos de produção;
aumentam riscos ambientais;
dificultam a adoção de tecnologias avançadas.
Por outro lado, agrônomos bem formados demonstram impacto significativo, podendo elevar a produtividade em até 20% apenas pela melhor gestão técnica.

Considerações finais

A formação em Agronomia no Brasil apresenta um cenário dual: excelência em uma minoria de instituições e fragilidade na maioria dos cursos. A expansão desordenada, a ênfase excessiva na teoria e a desconexão com a realidade do campo resultam em profissionais insuficientemente preparados para os desafios da agricultura moderna.

Diante disso, conclui-se que, de modo geral, a qualidade dos egressos de Agronomia no país é insuficiente para sustentar os avanços exigidos por uma agricultura cada vez mais tecnológica, sustentável e orientada por dados. Sem uma revisão profunda dos modelos de formação, o principal limitante ao crescimento do setor continuará sendo o capital humano.

O texto expressa a opinião do autor e não necessariamente aquela da ABCA.
Sobre o CCAS

O Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) é uma organização da Sociedade Civil, criada em 15 de abril de 2011, com domicilio, sede e foro no município de São Paulo (SP), com o objetivo precípuo de discutir temas relacionados à sustentabilidade da agricultura e se posicionar, de maneira clara, sobre o assunto.

O CCAS é uma entidade privada, de natureza associativa, sem fins econômicos, pautando suas ações na imparcialidade, ética e transparência, sempre valorizando o conhecimento científico.

Os associados do CCAS são profissionais de diferentes formações e áreas de atuação, tanto na área pública quanto privada, que comungam o objetivo comum de pugnar pela sustentabilidade da agricultura brasileira. São profissionais que se destacam por suas atividades técnico-científicas e que se dispõem a apresentar fatos, lastreados em verdades científicas, para comprovar a sustentabilidade das atividades agrícolas.

A agricultura, por sua importância fundamental para o país e para cada cidadão, tem sua reputação e imagem em construção, alternando percepções positivas e negativas. É preciso que professores, pesquisadores e especialistas no tema apresentem e discutam suas teses, estudos e opiniões, para melhor informação da sociedade. Não podemos deixar de lembrar que a evolução da civilização só foi possível devido à agricultura. É importante que todo o conhecimento acumulado nas Universidades e Instituições de Pesquisa, assim como a larga experiência dos agricultores, seja colocado à disposição da população, para que a realidade da agricultura, em especial seu caráter de sustentabilidade, transpareça

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