O Brasil ampliou sua capacidade de produção de biogás nos últimos anos, consolidando o combustível como uma alternativa relevante na agenda de transição energética. Levantamento do Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás) mostra que o número de usinas segue em expansão, impulsionado pelo aproveitamento de resíduos agroindustriais, urbanos e pecuários.
Apesar do avanço, o mesmo estudo aponta um ponto crítico: a produção de biometano — versão purificada do biogás, apta a substituir o diesel em ônibus e caminhões — ainda é limitada. Apenas uma pequena parcela das unidades em operação produz o combustível em escala e com padrão adequado para uso veicular. Na prática, o país tem capacidade instalada crescente, mas ainda distante de sustentar uma transição mais acelerada no transporte pesado.
O biometano desponta como solução estratégica para reduzir emissões no setor rodoviário, um dos mais dependentes de combustíveis fósseis. Além do ganho ambiental, há vantagens econômicas e geopolíticas: produção nacional, menor exposição às oscilações externas e transformação de resíduos em energia, fechando o ciclo da economia circular.
Mesmo assim, operadores de transporte seguem cautelosos. O entrave principal está na logística de distribuição e no custo de implantação da infraestrutura. Diferentemente do diesel, disponível em praticamente todo o território, o biometano ainda depende de redes de abastecimento em consolidação, o que impacta diretamente a viabilidade dos projetos.
Outro fator relevante é o modelo de decisão no transporte público. A renovação de frotas envolve não apenas empresas operadoras, mas também políticas públicas, contratos e diretrizes definidas por governos locais. Esse ambiente, frequentemente sujeito a mudanças regulatórias, adiciona incertezas ao ritmo da transição energética.
Especialistas defendem que o avanço do biometano exige planejamento de longo prazo, incentivos regulatórios e integração entre produtores, distribuidoras e operadores. Sem essa articulação, o risco é repetir um velho roteiro: energia limpa disponível, mas sem escala de consumo.
O cenário, ainda assim, é promissor. Com forte base agroindustrial e abundância de resíduos, o Brasil reúne condições únicas para expandir o setor. O desafio agora é simples de dizer e difícil de executar: transformar potencial em combustível rodando nas ruas.
GOIÁS TEM NOVOS PROJETOS E FROTA A BIOMETANO
No Centro-Oeste, Goiás começa a desenhar um capítulo próprio nessa história. Projetos em andamento indicam avanço na produção de biometano e na aplicação prática do combustível no transporte coletivo. Em Edéia, está prevista a implantação de uma usina com investimento de cerca de R$ 275 milhões. A planta deve produzir aproximadamente 67 mil Nm³ de biometano por dia, com capacidade para abastecer até 220 ônibus diariamente. O projeto não prevê gasoduto e tem estimativa de gerar 300 empregos, com prazo de cerca de dois anos para entrar em operação.
Já em Guapó, outra unidade está no radar, com investimento estimado em R$ 140 milhões. A produção deve chegar a 30 mil m³ por dia, suficiente para cerca de 100 ônibus. Diferentemente de Edéia, o projeto inclui um gasoduto de aproximadamente 25 quilômetros até um ponto central de distribuição. A expectativa é de geração de 150 empregos, também com prazo de dois anos.
Na capital, Goiânia, o tema já entrou na agenda pública. O governo estadual estruturou projeto para inserção do biometano no transporte coletivo, com adoção gradual do combustível na frota.
A incorporação de 501 ônibus movidos a biometano no sistema metropolitano já começou e segue até 2028/2029. A frota é composta por diferentes modelos, incluindo veículos articulados de até 19,2 metros e ônibus padrão com ar-condicionado, distribuídos em etapas.
Canal-Jornal da Bioenergia













