Soluções biotecnológicas ajudam a manter a produtividade das lavouras de cana-de-açúcar e milho no país, contribuindo para o controle de pragas e doenças
No Brasil, o cultivo de plantas como a cana-de-açúcar e o milho é um grande pilar da bioenergia e da produção de biocombustíveis, isto é, a energia gerada através de combustíveis renováveis como o etanol e o biodiesel. Porém, para que essas plantas sejam utilizadas como fontes energéticas e de combustíveis, é preciso realizar um processo que envolve a biotecnologia na bioenergia.
A partir da engenharia genética, é possível modificar a genética dessas plantas para que elas se tornem mais resistentes a pragas e doenças, além de mais produtivas e adaptadas a diferentes condições climáticas. Esse diagnóstico molecular reduz perdas no campo e garante maior disponibilidade de biomassa para a produção de biocombustíveis.
Na prática, significa mais eficiência ao longo de toda a cadeia bioenergética, desde a lavoura até a indústria. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, a bioenergia (que inclui etanol, biodiesel e biomassa) representa cerca de 30% da matriz energética brasileira, evidenciando o papel estratégico dessas culturas para o abastecimento energético do país.
Evitando agroquímicos, a partir da biotecnologia, também é viável aplicar diferentes bioinsumos, produtos produzidos através da tecnologia vegetal, que ajudam na nutrição, no crescimento e na proteção das plantas e do solo.
Esse conjunto de soluções proporcionadas através do setor bioenergético tem papel importante no controle biológico de pragas e doenças que fazem parte do ciclo natural das lavouras, contribuindo para manter a produtividade e a qualidade da biomassa.
A ameaça invisível nos canaviais e nas lavouras de milho
Mesmo com avanços tecnológicos, as lavouras seguem expostas a desafios que impactam diretamente a produção. Entre eles, estão pragas e doenças que, muitas vezes, não são percebidas de imediato, mas afetam o desenvolvimento das plantas e a qualidade da biomassa utilizada na produção de biocombustíveis.
Um dos principais exemplos é a broca-da-cana, inseto que perfura o caule da planta e reduz o teor de açúcar disponível para a produção de etanol. Já no milho, pragas como lagartas e percevejos, além de doenças fúngicas, podem comprometer o rendimento da lavoura. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que estima a produção de cana-de-açúcar em 668,8 milhões de toneladas na safra 2025/26, mesmo pequenas perdas percentuais representam impactos significativos em escala nacional.
Além das pragas visíveis, doenças causadas por fungos e bactérias também representam um desafio relevante. Problemas como ferrugem e podridões podem se espalhar rapidamente em condições climáticas favoráveis, afetando grandes áreas de plantio. Em muitos casos, o impacto não está apenas na quantidade colhida, mas na qualidade da matéria-prima, reduzindo a eficiência industrial na produção de etanol.
Para se ter uma ideia da gravidade que essas doenças podem causar no cultivo para bioenergia, estudos conduzidos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) indicam que a infestação por broca-da-cana pode causar perdas de até 10% na produtividade, além de comprometer a qualidade da matéria-prima e reduzir a eficiência industrial na produção de etanol.
O cenário reforça, mais uma vez, a importância de estratégias contínuas de monitoramento e controle, por meio da biotecnologia, ao longo de todo o ciclo produtivo.
O que a biotecnologia faz para proteger a biomassa?
Para lidar com esses desafios, a biotecnologia se tornou uma aliada estratégica no campo. Diferentes ferramentas vêm sendo utilizadas para prevenir, monitorar e controlar pragas e doenças de forma mais eficiente e sustentável, muitas delas baseadas em conhecimentos desenvolvidos em áreas como genética e microbiologia, uma vez que essas áreas dão base para técnicas como análise de DNA e identificação de microrganismos, utilizadas no monitoramento da sanidade vegetal.
Entre as tecnologias desenvolvidas para isso, os principais destaques são os seguintes.
Diagnóstico molecular: permite identificar patógenos (organismos ou agentes biológicos capazes de causar doenças nas plantas) antes mesmo de os sintomas aparecerem. A análise de DNA e de marcadores biológicos ajuda a detectar doenças precocemente, evitando sua disseminação na lavoura.
Controle biológico de pragas: utiliza organismos naturais, como fungos, bactérias e insetos, para combater pragas agrícolas. No caso da cana, inimigos naturais da broca ajudam a manter o equilíbrio sem depender de químicos.
Bioinsumos: são produtos de origem biológica que atuam na nutrição do solo e no fortalecimento das plantas. Com plantas mais saudáveis, a resistência a pragas e doenças aumenta de forma natural.
Melhoramento genético: desenvolve variedades mais produtivas e resistentes. Isso inclui tanto técnicas tradicionais quanto avanços mais recentes da biotecnologia, ampliando a adaptação das culturas a diferentes cenários climáticos, cada vez mais voláteis devido a mudanças de temperatura bruscas e períodos de estiagem mais longos.
Todas essas soluções fazem parte da chamada biotecnologia verde e são essenciais para garantir, de maneira sustentável e sem o uso abusivo de químicos, a sanidade vegetal em culturas voltadas à produção de energia.
Conhecimento que atravessa o campo: ciência aplicada ao setor bioenergético no Brasil
Grande parte desses recursos nasce em centros de pesquisa e é levada ao campo por meio da integração entre ciência e setor produtivo. Instituições como a Embrapa, por exemplo, atuam diretamente no desenvolvimento de tecnologias voltadas à sanidade vegetal e à biotecnologia aplicada às lavouras.
Parte desses especialistas tem formação em biologia molecular ou microbiologia, áreas trabalhadas também em cursos como a faculdade de biomedicina, o que amplia o leque de perfis técnicos que chegam ao setor sucroenergético por vias não convencionais, atuando através de diferentes campos e linhas de pesquisa.
Como consequência, esse avanço científico contribui diretamente para a estabilidade do setor e para o fortalecimento da biotecnologia na bioenergia no país. De acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), o Brasil continua mantendo elevados níveis de produção de etanol na safra 2025/26, resultado que depende diretamente da qualidade e da regularidade da matéria-prima.
Assim, ao integrar pesquisa, inovação e aplicação no campo, a biotecnologia na bioenergia se consolida como um dos principais pilares da produção de biocombustíveis no Brasil, sustentando o controle de perdas, o aumento da produtividade e a continuidade de um setor estratégico para a matriz energética nacional.













