Brasil articula aliança para ampliar espaço dos biocombustíveis na Europa

O Brasil iniciou articulações com Argentina e Paraguai para construir uma frente comum em defesa dos biocombustíveis latino-americanos no mercado europeu. A iniciativa surge em um momento estratégico, quando a União Europeia discute novas regras que podem limitar o reconhecimento de determinados combustíveis renováveis como sustentáveis, afetando diretamente produtos como etanol, biodiesel e combustível sustentável de aviação (SAF). O objetivo dos três países é harmonizar posições e fortalecer a presença da região em mercados internacionais que buscam alternativas aos combustíveis fósseis. A tarefa, no entanto, exige alinhamento entre modelos produtivos distintos. Enquanto a Argentina tem sua produção fortemente baseada na soja, o Brasil concentra seus esforços na cana-de-açúcar e no milho. Segundo representantes do setor, a união regional pode aumentar o peso político das negociações e ampliar as oportunidades comerciais em mercados como Europa, Japão e Canadá.

Europa acelera transição energética
A movimentação ocorre em meio à crescente transformação da matriz energética europeia. Impulsionada pelos impactos econômicos e geopolíticos dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, a União Europeia tem ampliado investimentos em fontes renováveis e reduzido sua dependência de petróleo e gás natural importados. Nos últimos anos, a participação das energias renováveis no sistema elétrico europeu cresceu significativamente, e a meta do bloco é elevar essa participação para 70% até 2050.

Apesar desse avanço, o foco europeu permanece concentrado na eletrificação da economia, especialmente em setores ligados à mobilidade e geração de energia. Nesse cenário, minerais críticos e terras raras utilizados na fabricação de baterias e painéis solares ganharam prioridade nas estratégias de cooperação internacional do bloco.

Novas regras preocupam produtores latino-americanos
Uma das principais preocupações dos produtores sul-americanos está no debate em andamento no Parlamento Europeu sobre a classificação dos biocombustíveis. Uma proposta em análise prevê que, a partir de 2030, combustíveis produzidos a partir de óleo de palma e soja deixem de ser considerados ferramentas válidas para metas de descarbonização. Embora a medida não proíba importações, ela pode reduzir a competitividade desses produtos e favorecer outras tecnologias de baixo carbono.

Além disso, a União Europeia já iniciou discussões sobre a revisão de sua política de energias renováveis para o período pós-2030. O processo inclui a redefinição dos critérios de sustentabilidade para biocombustíveis, o que gera apreensão entre os exportadores latino-americanos. Integrantes do setor avaliam que futuras restrições poderiam alcançar outras matérias-primas amplamente utilizadas na região, como milho e cana-de-açúcar.

Mercado europeu ainda tem potencial de crescimento
Atualmente, a Europa representa uma parcela relativamente pequena das exportações brasileiras de biocombustíveis. Em 2025, o Brasil exportou cerca de 1,6 bilhão de litros de etanol, sendo pouco mais de 200 milhões destinados ao continente europeu. O cenário, porém, pode mudar nos próximos anos. O acordo entre Mercosul e União Europeia prevê cotas superiores a 800 milhões de litros de etanol sul-americano, criando perspectivas de ampliação dos embarques. O setor de biodiesel também vê oportunidades. Hoje, apenas uma pequena fração da produção brasileira é exportada, mas empresários acreditam que a demanda europeia por soluções imediatas de descarbonização poderá abrir novos mercados para o produto.

Debate ambiental marca disputa comercial
Um dos principais argumentos utilizados por setores europeus é que a produção de biocombustíveis compete com a produção de alimentos e pode estimular o avanço do desmatamento. Produtores brasileiros contestam essa visão. Estudos encomendados por entidades do setor buscam demonstrar que as condições climáticas da América Latina permitem duas ou até três safras anuais em diversas regiões, aumentando a produtividade agrícola sem a necessidade de expansão das áreas cultivadas. O argumento é que a produção de etanol, biodiesel e SAF pode crescer utilizando áreas já consolidadas pela agricultura, conciliando segurança alimentar e redução das emissões de gases de efeito estufa.

SAF desponta como oportunidade
Entre os combustíveis renováveis, o SAF é considerado o segmento com maior receptividade na Europa. O combustível sustentável de aviação é apontado como uma das principais alternativas para reduzir as emissões do transporte aéreo nas próximas décadas. Atualmente, grande parte do SAF consumido pelos europeus é produzida a partir de óleos residuais, como óleo de cozinha usado. Ainda assim, especialistas acreditam que matérias-primas agrícolas poderão ganhar espaço à medida que a demanda aumente.

Mesmo com projeções de crescimento, o mercado ainda é considerado limitado. As estimativas mais otimistas indicam que o SAF representará cerca de 10% do consumo total de combustível da aviação europeia até 2050. Diante desse cenário, Brasil, Argentina e Paraguai apostam na construção de uma agenda comum para defender os biocombustíveis da região e ampliar sua participação na transição energética global.

Canal-Jornal da Bioenergia

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