Conflito no Oriente Médio levanta alerta para exportações do agronegócio brasileiro

A intensificação das tensões no Oriente Médio passou a preocupar também o agronegócio brasileiro. A região é considerada estratégica para as vendas externas do setor e concentra parcela relevante das exportações de commodities agrícolas, especialmente milho e carne de frango. Levantamento do Insper Agro Global mostra que, em 2025, os países do Oriente Médio importaram US$ 12,4 bilhões em produtos agropecuários do Brasil, valor que corresponde a 7,4% de todas as exportações do agronegócio brasileiro no período.

Entre os principais mercados compradores estão Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, países que mantêm forte demanda por alimentos e matérias-primas produzidas no Brasil. O Irã se destaca como um dos principais parceiros comerciais do país na região. No ano passado, as importações iranianas de produtos agropecuários brasileiros somaram cerca de US$ 2,9 bilhões, o equivalente a 23,6% das exportações brasileiras destinadas ao Oriente Médio.

Para o professor e coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank, a importância da região vai além do valor financeiro das transações. Segundo ele, o Oriente Médio passou a desempenhar um papel estrutural no escoamento de algumas cadeias produtivas do agronegócio nacional.

Dependência em produtos estratégicos

Os dados do estudo indicam que determinados produtos apresentam forte dependência das compras realizadas por países do Oriente Médio. No caso da carne de frango, cerca de 29% das exportações brasileiras, o equivalente a aproximadamente 1,5 milhão de toneladas, são destinadas à região. A dependência é ainda maior no mercado de milho. Aproximadamente 31,5% das exportações brasileiras do grão, ou 12,9 milhões de toneladas, têm como destino países do Oriente Médio.

O comércio de açúcar também possui presença significativa na região, que absorve cerca de 17% das vendas externas brasileiras, volume próximo de 5,8 milhões de toneladas. Já nas exportações de carne bovina, a participação é de 6,5%, o equivalente a cerca de 220 mil toneladas. Entre os compradores de milho, o destaque novamente é o Irã. O país foi o principal destino do cereal brasileiro em 2025, adquirindo aproximadamente 9 milhões de toneladas, o que representa 22% de todo o milho exportado pelo Brasil no período. Especialistas apontam que uma eventual interrupção prolongada nas relações comerciais com a região poderia provocar impactos relevantes em algumas cadeias produtivas.

Rotas marítimas e logística sob pressão

Outro fator de preocupação está relacionado à segurança das rotas marítimas que sustentam o comércio internacional. O agravamento do conflito aumenta o risco em corredores estratégicos de transporte. Entre os pontos mais sensíveis estão o Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás, e o estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o Mar Vermelho ao Canal de Suez. Problemas nessas rotas podem gerar desvios de navios, aumento no custo dos fretes e elevação do valor dos seguros marítimos, encarecendo a logística das exportações brasileiras. Além disso, parte importante do comércio global de fertilizantes também passa por essas rotas. Estimativas indicam que cerca de 45% da ureia exportada no mundo, 25% da amônia e 20% do fosfato diamônico (DAP) transitam por corredores ligados à região.

Energia e fertilizantes no radar

O impacto do conflito também pode chegar ao campo por meio dos custos de produção. Tensões geopolíticas costumam pressionar os preços internacionais de petróleo e gás natural, insumos essenciais para a fabricação de fertilizantes nitrogenados. Quando o preço da energia sobe, os fertilizantes tendem a acompanhar o movimento, elevando os custos da produção agrícola. Analistas avaliam que os efeitos para o agronegócio brasileiro dependerão da evolução do cenário geopolítico. Caso as tensões sejam contidas rapidamente, os impactos podem se limitar à volatilidade nos preços de energia, frete e insumos. Por outro lado, uma escalada prolongada do conflito pode provocar pressões mais duradouras sobre custos, logística e estratégias comerciais do setor.

Diante desse cenário, especialistas destacam que a diversificação de mercados vem ganhando importância crescente nas estratégias do agronegócio brasileiro, como forma de reduzir riscos e ampliar a segurança das exportações.

Canal-Jornal da Bioenergia

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