Uma possível mudança na legislação dos Estados Unidos pode provocar um novo rearranjo no mercado global de etanol e abrir espaço para o avanço das exportações brasileiras nos próximos anos. O projeto que autoriza a venda de gasolina com mistura de 15% de etanol — o chamado E15 — durante todo o ano já foi aprovado pela Câmara dos Representantes americana e agora aguarda votação no Senado.
Atualmente, o E15 enfrenta restrições durante o verão nos Estados Unidos devido a preocupações ambientais relacionadas à formação do “smog”, uma névoa de poluição atmosférica. Com a eventual aprovação definitiva da proposta e sanção do presidente Donald Trump, a mistura passaria a ser liberada permanentemente em todo o país. A mudança ocorre em um cenário considerado favorável ao biocombustível. Segundo análise da StoneX, as tensões geopolíticas no Oriente Médio têm pressionado os preços do petróleo, enquanto o milho — principal matéria-prima do etanol americano — registra desvalorização após duas safras recordes nos Estados Unidos.
Nesse contexto, o aumento da mistura de etanol na gasolina ganha força por atender simultaneamente interesses ligados à segurança energética, ao escoamento da produção agrícola e às metas de descarbonização.
Mercado adicional pode chegar a 8 bilhões de litros
Os Estados Unidos são hoje os maiores produtores mundiais de etanol. Em 2024, o país produziu cerca de 16,2 bilhões de galões do biocombustível, o equivalente a 52% da oferta global. Aproximadamente 90% desse volume é consumido internamente. Com a adoção definitiva do E15, especialistas estimam a abertura de um mercado adicional de até 8 bilhões de litros por ano. O presidente da Datagro Consultoria, Plinio Nastari, avalia que o Brasil está entre os poucos países com capacidade de suprir parte dessa nova demanda.
Hoje, a mistura padrão nos Estados Unidos é de 10% de etanol na gasolina, embora alguns estados do Meio-Oeste já tenham autorizado temporariamente o E15. Em 2025, a média nacional ficou em 10,51%. Segundo Nastari, a ampliação da mistura pode elevar o consumo anual de etanol nos Estados Unidos de cerca de 52 bilhões para até 62 bilhões de litros, praticamente absorvendo o excedente atualmente destinado às exportações americanas. “O excedente vai zerar e um mercado adicional será criado, que pode ser abastecido pela produção local ou por importações”, afirmou o especialista em entrevista ao portal Money Times.
Brasil amplia produção e pode ganhar espaço
A possível abertura do mercado americano coincide com um período de forte expansão da produção brasileira de etanol, especialmente no Centro-Oeste, impulsionada pelas novas usinas de etanol de milho. expectativa é de que o Brasil amplie sua oferta em cerca de 5 bilhões de litros já em 2026, resultado tanto do crescimento do etanol de milho quanto do aumento da produção de etanol de cana nas regiões tradicionais.
Atualmente, o país produz cerca de 36,8 bilhões de litros e consome aproximadamente 33 bilhões. O excedente exportável deve se aproximar de 4 bilhões de litros nos próximos anos. As projeções da Datagro apontam ainda para um avanço acelerado do etanol de milho no Brasil. A produção do biocombustível a partir do cereal pode mais que dobrar até 2034, saltando de 12 bilhões para 24,7 bilhões de litros anuais. Com isso, o Brasil passa a ocupar uma posição estratégica em um cenário de maior demanda internacional por combustíveis renováveis, especialmente em mercados que buscam reduzir emissões sem abrir mão da segurança energética.
Canal-Jornal da Bioenergia













