Entrevista: Solar chega a 70 GW no Brasil e setor alerta para desafios no avanço da fonte

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Nesta entrevista exclusiva para o Canal-Jornal da Bioenergia, Bárbara Rubim, presidente do Conselho de Administração da ABSOLAR, faz uma análise dos cenários atuais do setor e sinaliza os desafios atuais para o avanço da energia solar no Brasil.

Canal: Qual é o retrato atual da energia solar? A ABSOLAR projeta manutenção do ritmo de crescimento do setor nos próximos anos?

A fonte solar acaba de atingir 70 gigawatts (GW) de potência instalada operacional no Brasil, incluindo a geração própria em pequenos e médios sistemas e as grandes usinas conectadas no Sistema Interligado Nacional (SIN), segundo balanço recente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR). Os investimentos acumulados na tecnologia superam R$ 305 bilhões no Brasil na última década, responsáveis pela criação de mais 2,1 milhões de empregos verdes acumulados. Adicionalmente, o setor já garantiu mais de R$ 95,7 bilhões em arrecadação aos cofres públicos. Atualmente, a solar é a segunda fonte na matriz elétrica brasileira, representando cerca de 26,2% do total.

Embora os 70 GW da fonte solar tenham contribuição relevante para a transição energética e avanço na economia verde no Brasil, o resultado acontece num cenário de desaceleração dos projetos no País, tanto nas grandes usinas quanto nos pequenos sistemas de geração própria. Entre os gargalos, estão os cortes de geração sem o devido ressarcimento aos empreendedores prejudicados e pelos obstáculos de conexão na geração própria dos consumidores, sob a alegação de incapacidade das redes e inversão de fluxo de potência.

A expectativa da ABSOLAR é de continuidade do crescimento nos próximos anos, mas em patamares inferiores ao verificado nos últimos dois anos. O Brasil possui uma das melhores condições solares do mundo e ainda há espaço para um crescimento sustentável da fonte em residências, empresas, indústrias, propriedades rurais e grandes usinas, sobretudo com o advento das tecnologias de armazenamento energético.

Quais regiões do Brasil têm liderado a expansão da energia solar e por quê?

A presença da fonte solar é bastante pulverizada no País. A tecnologia fotovoltaica está presente em todas as regiões do Brasil com as usinas de grande porte e em mais de 5 mil munícipios com a geração própria em telhados e pequenos terrenos. Na geração solar centralizada, Minas Gerais lidera o ranking estadual, com 8,6 GW de capacidade instalada, seguida pela Bahia, com 2,9 GW, e Piauí, com 2,4 GW. Já na geração distribuída fotovoltaica, o estado de São Paulo figura na frente, com 6,6 GW, seguido por Minas Gerias, com 5,8 GW, e Paraná, com 4,2 GW.

O setor ainda enfrenta dificuldades de acesso a crédito e financiamento? A alta dos juros impacta os projetos de geração distribuída e grandes usinas?

O acesso a crédito melhorou nos últimos anos, mas ainda representa um desafio importante, principalmente para pequenos consumidores e empresas integradoras. Taxas de juros elevadas impactam diretamente o retorno dos investimentos e podem desacelerar decisões de compra. Por isso, a ABSOLAR defende políticas públicas e linhas de financiamento mais acessíveis, especialmente para democratizar o acesso da população à tecnologia solar e às novas tecnologias armazenamento por baterias.

Como está o cenário da geração distribuída após as mudanças regulatórias dos últimos anos?

O setor continua crescendo, embora em um ritmo mais estável após a aprovação do marco legal da geração distribuída. As mudanças regulatórias trouxeram maior previsibilidade ao mercado, com mais segurança jurídica e estabilidade regulatória. O consumidor continua vendo grande valor na energia solar, principalmente pela economia, previsibilidade de gastos e blindagem contra inflação energética

O consumidor residencial continua vendo vantagem econômica na instalação de sistemas solares?

Sim. Mesmo com mudanças regulatórias e juros mais elevados, a energia solar segue economicamente atrativa. Em muitos casos, o retorno do investimento ocorre entre três e cinco anos, enquanto os sistemas possuem vida útil superior a 25 anos. Além da economia, há benefícios relacionados à sustentabilidade, proteção contra aumentos tarifários e mais independência energética.

Quais empresas e produtores rurais têm ampliado a adesão à energia solar?

O agronegócio continua sendo um dos três grandes protagonistas no uso da geração própria solar. Do total de potência instalada na modalidade, as residências lideram com 24,5 gigawatts (GW), seguidas pelos estabelecimentos comerciais, com 13,1 GW, e o setor rural, com 6,1 GW.  Vale destacar que os produtores rurais utilizam a tecnologia fotovoltaica para reduzir custos operacionais e aumentar competitividade, o que significa um alimento mais barato ao consumidor. As propriedades rurais têm também um forte protagonismo no uso de sistemas de armazenamento de energia elétrica no Brasil, muitas vezes combinadas com a geração própria solar, já que enfrentam quedas frequentes de energia pela precariedade da rede em certas regiões. Há ainda muitos locais no meio rural onde não há rede elétrica, o que torna a geração solar com baterias ainda mais necessária.

O que ainda precisa avançar para democratizar o acesso à energia solar no País?

É fundamental ampliar o acesso ao financiamento, fortalecer programas sociais e habitacionais com energia solar, modernizar a infraestrutura elétrica e promover maior educação energética da população. A ABSOLAR também defende políticas voltadas à população de baixa renda, além do avanço do armazenamento energético, que será essencial para ampliar a flexibilidade e segurança do sistema elétrico brasileiro. Os principais desafios incluem limitações da infraestrutura de transmissão e distribuição, cortes de geração renovável sem ressarcimento adequado, insegurança regulatória em alguns temas, altas cargas tributárias em equipamentos, sobretudo nas baterias, dificuldades de conexão à rede elétrica e necessidade de modernização do planejamento energético nacional.

A infraestrutura de transmissão acompanha o crescimento das usinas solares no Brasil?

Obviamente, não. Neste momento do setor elétrico, o setor fotovoltaico já não se encontra onde estava quando a fonte solar começou a decolar no Brasil. E, agora, o País está diante de um paradoxo histórico. Hoje, o Brasil já ultrapassa 70 gigawatts de capacidade instalada da fonte solar, consolidando-se como a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira e o sexto maior mercado solar do mundo. Esse avanço demonstra a força da tecnologia, mas também evidencia a necessidade de atualização das estruturas do sistema elétrico brasileiro”, pontua. Curtailment, inversão de fluxo de potência e discussões tarifárias mostram que o sistema não foi projetado para acompanhar a velocidade com que as renováveis cresceram e com que as novas tecnologias estão chegando. Mas esses não são sintomas de fracasso. São sintomas de um sucesso que chegou mais rápido do que as estruturas conseguiram acompanhar. A prioridade da ABSOLAR será contribuir tecnicamente para que o Brasil consiga fechar essa lacuna com planejamento, previsibilidade regulatória e diálogo institucional.

O curtailment (corte de geração) preocupa o setor? Como resolver isso?

Os cortes de geração impostos a usinas solares e eólicas no Brasil — que vêm se intensificando nos últimos anos e meses — configuram a maior crise já enfrentada pelas fontes renováveis no País. O principal problema não está apenas nos cortes em si, mas na ausência de ressarcimento aos geradores, que não têm responsabilidade nem ingerência sobre essas interrupções.

Diante desse cenário crítico e da necessidade urgente de soluções, o Congresso Nacional aprovou medidas importantes para conferir maior previsibilidade aos investimentos, incluindo a possibilidade de ressarcimento pelos cortes passados, por meio da Medida Provisória nº 1.304/2025, convertida na Lei nº 15.269/2025.

Como desdobramento dessa legislação, o Ministério de Minas e Energia (MME) abriu a Consulta Pública nº 210/2025, propondo a pactuação dos cortes passados por meio de um Termo de Compromisso. A iniciativa busca encerrar as ações judiciais em curso, além de assegurar os direitos dos geradores prejudicados. Nesse contexto, é fundamental que o resultado da consulta pública contemple as contribuições conjuntas apresentadas pela ABSOLAR e pela ABEEólica, de modo a viabilizar a adesão dos agentes ao termo proposto pelo MME.

O aumento em 2025 das ocorrências do curtailment, principalmente aquelas classificadas como energéticas, foi um dos principais fatores responsáveis pela retração da geração centralizada no mercado fotovoltaico no Brasil em relação a 2024.

Somente no setor solar, os prejuízos financeiros decorrentes da falta de mecanismos de compensação aos empreendedores impactados representam grave risco aos projetos existentes e pode levar à perda de credibilidade, fuga de capital, fechamento de empresas, queda de empregos e retrocesso na transição energética no País. Também mina drasticamente a confiança dos investidores nacionais e internacionais no país e prejudica a atratividade do Brasil em energia limpa.

Com o agravamento dos cortes, a Lei nº 15.269/2025 estabeleceu condições para a revogação não onerosa de outorgas de usinas renováveis, desde que ainda não tenham firmado Contratos de Uso do Sistema de Transmissão (CUST).

Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o aumento dos cortes já impacta diretamente o ambiente de investimentos no setor. Em 2025, foram revogadas 509 outorgas de usinas solares e eólicas, totalizando cerca de 22 GW de capacidade instalada. Esse volume representa mais de R$ 70 bilhões em investimentos perdidos, além da eliminação de dezenas de milhares de empregos verdes e frustração de arrecadação para os cofres públicos. Enquanto não houver uma solução efetiva para os cortes, que garanta segurança jurídica e previsibilidade, o desenvolvimento de novos projetos tende a permanecer paralisado, com risco de novas revogações. Esse cenário compromete o protagonismo do Brasil na transição energética e afasta novos investimentos do País.

Para assegurar as compensações aos geradores renováveis, é essencial que o Ministério de Minas e Energia defina com clareza os critérios que o ONS aplicará na classificação dos cortes. Hoje, a falta de precisão gera dúvidas e imprevisibilidade para investidores, sobretudo na classificação dos cortes futuros e na definição da sobreoferta passada. A compensação financeira aos geradores impactados é uma medida essencial para reduzir a judicialização do tema e mitigar os prejuízos causados pelos cortes de geração, especialmente diante da magnitude das perdas no setor.

Qual papel a energia solar terá na transição energética brasileira nas próximas décadas?

A energia solar já tem sido protagonista da transição energética brasileira e deve ampliar a sua relevância nos próximos a partir da combinação com sistemas de armazenamento energético por baterias. Além de ajudar na descarbonização da economia, as tecnologias combinadas vão contribuir ainda mais para segurança energética, flexibilidade operativa, geração de empregos verdes, desenvolvimento regional e atração de novos investimentos. O Brasil reúne condições únicas para se tornar uma potência global em energia limpa.

Como a energia solar se conecta ao crescimento do hidrogênio verde no País?

A expansão do hidrogênio verde depende diretamente da disponibilidade de energia renovável competitiva e de uma infraestrutura elétrica moderna, capaz de receber as novas cargas, como o próprio hidrogênio verdes e outras, como data centers, inteligência artificial e eletromobilidade. Nesse contexto, a energia solar terá papel estratégico, por ser a mais competitiva e extremamente abundante no Brasil.

O armazenamento em baterias será o próximo salto do setor?

Sem dúvida. Os sistemas de armazenamento de energia elétrica por baterias (BESS) surgem como novos protagonistas da próxima etapa da transição energética no País. As tecnologias de baterias representam hoje uma importante solução para prover mais flexibilidade, estabilidade e segurança à operação do sistema elétrico nacional. Segundo projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), apresentadas no Plano Decenal de Energia (PDE 2035), o Brasil poderá incorporar cerca de 7 gigawatts (GW) em armazenamento de eletricidade até 2035, além de outros 3 GW em mecanismos de resposta da demanda. Esses recursos serão fundamentais para atender às necessidades de potência do Sistema Interligado Nacional (SIN), reduzir custos operacionais e ampliar a confiabilidade da rede elétrica. De fato, com a rápida redução dos preços das baterias, é possível que sejam instaladas quantidades muito superiores às destas projeções conservadoras, acelerando ainda mais os ganhos trazidos por esta tecnologia ao Brasil.

Além dos ganhos operacionais, o armazenamento também se consolida como alternativa competitiva às térmicas fósseis. Análises da consultoria CELA apontam que o uso de baterias pode reduzir em até 48% os custos totais para atendimento da necessidade de capacidade (potência) no setor elétrico brasileiro, em relação a opções baseadas em termelétricas movidas a combustíveis fósseis.

Por sua vez, a combinação entre energia solar e baterias permitirá melhor aproveitamento da geração renovável, redução de desperdícios energéticos e maior segurança no atendimento da demanda. Apesar do enorme potencial brasileiro, ainda existem desafios importantes. A ausência de um marco regulatório para o armazenamento, a dificuldade de remuneração adequada pelos múltiplos serviços prestados pelas baterias, a alta carga tributária de 70% a 80% sobre as baterias, a pouca disponibilidade de linhas de financiamento específicas e as limitações na estrutura de mercado ainda dificultam a expansão do setor.

Nesse sentido, o aprimoramento do mercado de serviços ancilares, com sinais econômicos claros e valorização dos atributos técnicos do armazenamento, será um dos pilares fundamentais para destravar investimentos e consolidar modelos de negócio sustentáveis.

Como a ABSOLAR imagina o setor solar brasileiro em 2030?

A expectativa é que a energia solar amplie ainda mais sua participação na matriz elétrica brasileira, a partir do avanço do armazenamento, maior integração com data centers, mobilidade elétrica e hidrogênio verde, além da expansão das atividades econômicas, que elevarão a demanda por energia elétrica limpa e competitiva. Atualmente, o Brasil é o sexto maior mercado de energia solar no mundo. E a tendencia é o país galgar mais espaço na geopolítica de transição energética.

Bárbara Rubim, presidente do Conselho de Administração da ABSOLAR

 

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