O que antes ia direto para o ralo agora pode voltar para o campo como produtividade. Uma parceria entre a startup paulista BiotecBlue e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no campus de São José dos Campos, está convertendo efluentes tratados de cervejarias e da criação de tilápia e camarão em microalgas com alto valor agregado. O resultado é um bioestimulante agrícola que surge como alternativa mais acessível aos fertilizantes químicos tradicionais. A iniciativa conta com apoio do Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo por meio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), voltado ao fomento de inovação em pequenos negócios.
Do problema ambiental à matéria-prima estratégica
Resíduos da produção de cerveja artesanal e da aquicultura são ricos em nitrogênio, fósforo e carbono — nutrientes que, quando despejados sem controle, provocam eutrofização e comprometem rios e lagos. Mas, sob controle técnico, tornam-se combustível biológico. Foi exatamente esse o caminho escolhido pelos pesquisadores. As microalgas cultivadas nesses efluentes apresentaram desempenho nutricional superior ao observado em meios sintéticos de laboratório. Após o cultivo, a água residual retorna praticamente limpa, com baixa carga de nutrientes, podendo ser reutilizada ou devolvida ao ambiente com menor impacto.
Inicialmente, o projeto utilizou resíduos da carcinicultura e da piscicultura. Com o encerramento das atividades do fornecedor, a equipe buscou nova fonte — e encontrou no setor cervejeiro uma alternativa mais estável e abundante. O Brasil vive a expansão das cervejarias artesanais, o que facilita a logística e amplia a escala de coleta do material. Outro diferencial está na utilização de resíduos reais, e não simulados. A complexidade química desses efluentes reproduz melhor as condições industriais, garantindo maior robustez ao processo.
Microalgas: proteína, antioxidante e carbono capturado
As microalgas cultivadas são ricas em proteínas e betacaroteno, antioxidante natural valorizado tanto na agricultura quanto na aquicultura. No caso de camarões, por exemplo, o composto intensifica a coloração avermelhada, atributo importante para o mercado consumidor. Além disso, o cultivo contribui para a captura de dióxido de carbono (CO₂) via fotossíntese, agregando potencial para geração de créditos de carbono — uma frente estratégica dentro da chamada biotecnologia azul.
Escalonamento e testes no campo
Desde 2024, o projeto avança para a fase piloto, com o dimensionamento de um sistema de 100 litros. Os bioestimulantes já estão sendo testados em lavouras de milho, banana, hortaliças e café nos Estados de São Paulo e Minas Gerais. Resultados preliminares indicam melhora no desenvolvimento foliar e na qualidade do solo. Do ponto de vista econômico, a proposta ganha ainda mais relevância. O Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes que consome, movimentando cerca de US$ 25 bilhões por ano, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) apontam que fertilizantes podem representar até metade do custo de produção do milho e 40% da soja. A substituição parcial por bioinsumos nacionais pode reduzir custos, diminuir dependência externa e fortalecer a sustentabilidade do agro brasileiro.
Mercado em expansão
Relatórios internacionais indicam que o mercado global de biotecnologia azul pode praticamente dobrar até 2032, saindo de US$ 14,5 bilhões para US$ 29,5 bilhões. O movimento aponta que soluções baseadas em resíduos e processos biotecnológicos deixam de ser tendência para se tornar estratégia econômica. Ao transformar descarte em insumo, o projeto mostra que inovação e sustentabilidade podem caminhar juntas — e que o que antes era problema ambiental pode se tornar ativo produtivo no campo.
Canal-Jornal da Bioenergia













