Subsídio à gasolina amplia pressão sobre etanol e preocupa setor sucroenergético

A decisão do governo federal de subsidiar a gasolina em R$ 0,89 por litro reacendeu o debate sobre os impactos das políticas de controle de preços sobre o mercado de biocombustíveis no Brasil. Representantes do setor sucroenergético avaliam que a medida reduz a competitividade do etanol, amplia distorções na cadeia de distribuição e pode frear investimentos em combustíveis renováveis.

Na avaliação do presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (Sindalcool), Edmundo Barbosa, o cenário se torna ainda mais delicado diante da diferença entre os preços pagos aos produtores e os valores encontrados pelo consumidor final nos postos. Segundo dados do Cepea/Esalq, o etanol hidratado vendido pelas usinas paraibanas estava cotado a R$ 2,9801 por litro no início de maio, sem considerar impostos e frete. Já levantamento da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostrou que o combustível chegou aos postos com preço médio de R$ 4,80 por litro.

No mesmo período, a gasolina comum foi comercializada, em média, a R$ 6,44 o litro na Paraíba. Com isso, a relação entre os combustíveis alcançou aproximadamente 74,5%, percentual considerado próximo do limite de competitividade econômica do etanol para veículos flex. “Quando a gasolina recebe estímulos artificiais de preço, o etanol perde espaço imediatamente nas bombas. Isso afeta diretamente produtores, distribuidores e toda a cadeia ligada aos biocombustíveis”, afirma Barbosa.

Distribuição e margens entram no centro do debate
O Sindalcool também chama atenção para o impacto das margens de distribuição sobre o preço final do etanol. A entidade argumenta que o aumento da competitividade do biocombustível poderia elevar o volume comercializado nos postos e melhorar o giro operacional do setor. De acordo com Barbosa, o etanol possui dinâmica diferente da gasolina. O executivo destaca que o combustível renovável tende a estimular maior frequência de abastecimento e ampliar o fluxo de consumidores, beneficiando inclusive lojas de conveniência e serviços agregados. A preocupação ganha força porque a maior parte da frota brasileira é composta por veículos flex, o que faz pequenas oscilações de preço influenciarem rapidamente a escolha do consumidor.

Especialista critica sinalização ao mercado
O presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, avalia que a medida contraria o discurso brasileiro de fortalecimento da transição energética e desestimula novos investimentos no setor sucroenergético. Segundo ele, além do subsídio, o mercado enfrenta outro fator de pressão: a defasagem entre os preços praticados pela Petrobras e a paridade internacional de importação da gasolina. Nastari ressalta ainda que os preços do etanol pagos aos produtores acumulam forte retração desde o início do ano, enquanto a redução percebida pelo consumidor final permanece limitada. O especialista também demonstrou preocupação com o atraso na ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, prevista para passar de 30% para 32%, além do aumento da mistura de biodiesel no diesel. Para o setor, a demora reduz a previsibilidade do mercado justamente em um momento em que o país segue importando bilhões de litros de combustíveis fósseis.

Setor reforça papel ambiental e econômico do etanol
Representantes da indústria sucroenergética defendem que medidas emergenciais para conter a inflação dos combustíveis considerem também os impactos sobre os biocombustíveis, apontados como estratégicos para a descarbonização da matriz energética brasileira. O etanol é visto pelo setor como uma das principais ferramentas nacionais de redução de emissões de gases de efeito estufa, com potencial de diminuir em até 90% as emissões de carbono em comparação à gasolina.

Além da relevância ambiental, o segmento também possui peso econômico expressivo. Somente na Paraíba, o setor sucroenergético responde por cerca de 20 mil empregos diretos, além de movimentar renda e atividade econômica em municípios produtores.

Canal-Jornal da Bioenergia

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